“Graças à profunda misericórdia de nosso Deus, pela qual nos visitará o sol nascente das alturas” [Lc. 1.78, trad., Nova Almeida Atualizada]
O nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo é o mais admirável testemunho da misericórdia de Deus para com a humanidade caída. Pois aquele que desde a eternidade habita na glória inacessível, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, dignou-se assumir a nossa carne frágil, para que, feito semelhante a nós em tudo, exceto no pecado, pudesse restaurar o que estava perdido em Adão.
Não foi por necessidade, mas por livre e graciosa vontade que o Filho de Deus se humilhou, tomando a forma de servo. Nasceu não em palácios, mas em humilde manjedoura, para que ficasse manifesto que o reino que veio estabelecer não é deste mundo.
Assim, Deus confunde a soberba dos homens, escolhendo o que é desprezado aos olhos humanos para revelar a grandeza de sua glória.
Neste mistério da encarnação, contemplamos a perfeita união entre a justiça e a misericórdia divinas. Pois Deus não ignorou o pecado, mas proveu um Mediador que, desde o seu nascimento, foi separado para cumprir a obra da redenção. O menino envolto em faixas já carregava sobre si o propósito eterno de reconciliar os eleitos com o Pai.
Portanto, o nascimento de Cristo não deve ser considerado apenas como um evento digno de admiração, mas como fundamento sólido de nossa fé. Nele vemos que Deus é fiel às suas promessas e que a salvação não procede dos homens, mas unicamente da graça soberana.
Assim, sejamos conduzidos não a curiosas especulações, mas à verdadeira piedade, para que, reconhecendo a humildade de Cristo em seu nascimento, aprendamos também a nos submeter inteiramente à vontade de Deus, vivendo para a glória daquele que, por amor, se fez Emanuel, Deus conosco.
João Calvino